A comédia teatral ‘Pequenas Igrejas, Grandes Negócios’, que seria apresentada em Mogi Mirim neste sábado (17), foi cancelada após uma polêmica envolvendo a divulgação do evento. Um banner com os dizeres ‘Pequenas Igrejas, Grandes Negócios’ foi divulgado na cidade, gerando protestos de religiosos – entre eles de vereadores com posicionamentos evangélicos. A comédia, uma adaptação de ‘O Santo Milagroso’, obra de Lauro César Muniz escrita em 1962, é assinada pela Ceart Produtora, tem como diretores Thiago Silva e Benê Silva.

A apresentação aconteceria no Centro Cultural de Mogi Mirim. No cartaz divulgado na cidade e também nas redes sociais, aparecem os dizeres ‘Pequenas Igrejas, Grandes Negócios’. “O espetáculo é uma comédia leve e irreverente que satiriza o jogo de poder e a manipulação da igreja. O espetáculo aposta e caminha na contramão das comédias do mercado do tipo ‘stand-up’. Surpreende pela forma de humor, sem apelações e/ou palavrões. A graça vem das situações cômicas provocadas pelos personagens e não de piadas prontas”, diz a divulgação do evento.

Os vereadores Tiago Costa (PMDB) e Samuel Cavalcanti (PR) repercutiram o assunto e se posicionaram contrariamente à peça. Costa chegou a levar o tema à tribuna da Câmara Municipal. Ambos criticaram a Prefeitura por “apoiar” o evento por meio da Secretaria Municipal de Cultura. “Lamentável com o apoio da Prefeitura, se utilizar de uma Bíblia considerada por nós sagrada, para esculachar os cristãos, com uma nota de 100 reais no meio (sic)”, comentou Costa – que na época do Massacre do Charlie Hebdo opinou em defesa da liberdade de expressão, citando artigo da Constituição Federal que garante a “livre expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.

Em postagem de 2015 em rede social, vereador que condenou peça defendeu liberdade de expressão (Reprodução)

O parlamentar utilizou a tribuna da Casa Legislativa para condenar a peça, destacando o fato de a imagem ter reproduzido um livro com uma nota de R$ 100,00 – que na sua interpretação seria a Bíblia. “Achei uma afronta à nossa crença, à liberdade de eu crer e dar o dízimo e fazer minha parte com Deus conforme eu creio, conforme minha crença. Façam cultura, sim, desde que não invadam a crença do próximo”.

Para Cavalcante, a peça “ofende o cristianismo, zomba das igrejas e satiriza a fé cristã”. Diante da repercussão do tema, que se transformou em polêmica na cidade, o evento foi cancelado. Não houve venda de ingresso antecipada, por isso não haverá necessidade de reembolso. Porém, os organizadores afirmam ter sofrido prejuízos operacionais.

A peça está circulando há tempos e já passou por várias cidades da região. A produtora responsável é de Paulínia (SP). Na próxima semana, a apresentação de ‘Pequenas Igrejas, Grandes Negócios’ acontece no Clube do Círculo Militar de Campinas, por exemplo. A comédia também já foi apresentada no Teatro Castro Mendes, praticamente ao lado de um dos maiores templos da Igreja Universal do Reino de Deus em Campinas. Segundo a organização, não houve qualquer interferência na realização do evento.

Em nota, a Prefeitura de Mogi Mirim disse que a decisão de cancelar a apresentação da peça foi tomada pela produtora do evento. “A decisão pelo cancelamento foi tomada pelos produtores do espetáculo, já que não cabe à Prefeitura a responsabilidade pela apresentação das peças, apenas pela cessão do espaço artístico. O posicionamento foi informado à Secretaria de Cultura e Turismo na quarta-feira (14). O produtor Benê Silva tomou a decisão em decorrência de manifestações contrárias”, informou texto remetido ao Megaphone Cultural nesta sexta-feira (16).*

A Câmara Municipal da cidade não possui assessoria de imprensa. Ainda assim, foi encaminhada solicitação de posicionamento dos vereadores citados à Presidência da Casa, sem retorno até esta publicação. A peça retrata a vida em uma pequena cidade na qual um pastor e um padre disputam a liderança espiritual da população. Quando a irmã do pastor interessa-se pelo sacristão da Igreja Católica, o pastor procura o padre, seu rival, para tentar impedir o namoro. A única saída para o pastor é se vestir de santo, o que dá início a uma grande confusão. Segundo a direção do espetáculo, a partir da polêmica ocorrida em Mogi Mirim o enredo poderá ganhar “novos elementos”.

“É o retrato de uma nova ditadura”, afirma diretor-geral da peça

O diretor-geral do espetáculo, Benê Silva, conversou com a reportagem do Megaphone Cultural e classificou o episódio como “censura”. “Faço teatro e escrevo roteiros desde os anos 70. Antes, minha briga era com a Divisão de Censura e Diversões Públicas da Polícia Federal. Hoje não é com a bancada evangélica, mas sim com algumas pessoas que se elegem e se escondem atrás de uma bíblia para explorar a fé dos incautos e com isso tem força para pressionar o poder administrativo de uma cidade, de um estado e de um país. Esse problema em Mogi Mirim é apenas uma amostra muito pequena do que está acontecendo no Brasil. Ainda ontem tivemos a morte da [vereadora] Marielle [assassinada a tiros no Rio de Janeiro]”, lamentou.

De acordo com ele, a crítica dos vereadores nem mesmo foi com relação à peça em si, mas sim com o cartaz. “O livro que aparece na imagem pode ser um livro caixa, a Constituição, um livro de controle de um condomínio. Cada um interpreta da forma que lhe convém, tudo é contexto. Esse é o papel da arte. Esta peça está percorrendo muitas cidades e já temos agendado em Mogi Guaçu. Os mogimirianos que ainda desejarem assisti-la terão a oportunidade”, acrescentou.

Cartaz do evento foi o estopim da polêmica (Divulgação)

O diretor afirmou que a produtora foi pressionada a cancelar o evento em razão de ameaças de confusão caso o mesmo fosse realizado. “Teve vereador que disse que iria entrar com mandado de segurança na Justiça, que iria com a polícia no teatro. É o retrato de uma nova ditadura. Isso é coisa de falsos profetas que vendem água benta por R$ 160, que tiram dinheiro do aluguel dos fiéis. Tenho muito respeito por evangélicos, muitos amigos e familiares que são pessoas boas, eu falo é das pessoas que vendem o céu aos fiéis. Nossa arma é a arte, é a palavra com a alma limpa. Não somos filiados a nenhum partido, somos apartidários e entre nós há muitos cristãos que acreditam em um Deus da luz. Essas pessoas que condenaram a peça não entendem a dimensão da arte, vamos continuar denunciando os falsos profetas”, disse.

Em nota, outro diretor do espetáculo, Thiago Silva, atribuiu o cancelamento à pressão feita por “vereadores evangélicos”. “O espetáculo é adaptação de um texto escrito em 1962! Será que regredimos tanto? As pessoas que criticam e que querem boicotar sequer tiveram o trabalho de assistir ou conhecer o espetáculo. Se vissem pelo menos a sinopse da peça compreenderiam que não se trata de uma peça antireligiosa. É um espetáculo leve e irreverente que satiriza o jogo de poder e a manipulação da Igreja. Principalmente, o espetáculo brinca com os ‘exploradores da fé’, sejam católicos ou evangélicos. Já tivemos padres e pastores que assistiram ao espetáculo e, inclusive, um dos atores é filho de um pastor, e estes não se sentiram ofendidos, pelo contrário, parabenizaram pela reflexão e pela forma de humor inteligente”, desabafou.

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