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por Héber Sales*
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Não sejamos hipócritas. Gosto se discute, sim, é o que mais se discute. Mas ninguém precisa matar ou morrer por causa disso – ou se deprimir, o que é praticamente a mesma coisa quando a tristeza é grande demais. Pelo contrário, o debate pode ser tão divertido quanto montar um quebra-cabeça a muitas mãos. Se você dá um palpite errado, alguém lhe corrige, vocês riem juntos e o jogo continua.

É por aí que começo hoje, junto com os leitores e editores do Megaphone Cultural, a mapear a (boa) literatura da Baixa Mogiana e municípios vizinhos. Obviamente, a literatura atual, como qualquer outro tipo de arte contemporânea, não é um quebra-cabeça que venha com gabarito. Se alguém lhe mostrar um, desconfie. O que pode haver, no máximo, é uma sugestão de gabarito – é necessário até, para que o jogo comece. É o que proponho a seguir para os textos que desejamos receber para esta coluna através do e-mail megaimaginacao@megaphonecultural.com.

Primeiro, uma regra fácil, que talvez pouca gente queira mudar por enquanto: divulgaremos na coluna Mega Imaginação apenas aqueles autores nascidos ou residentes nos municípios da região. Segundo, daremos preferência para textos breves, com até 8.000 caracteres, pois não queremos assustar os leitores apressados, que, na internet, são a grande maioria. Nossa intenção é, pelo contrário, popularizar ao máximo os bons nomes da literatura local.

Por causa desse limite, provavelmente teremos aqui somente crônicas, contos e poemas, a menos que algum colaborador crie uma nova forma literária breve, o que seria muito bem vindo – este é um espaço de invenção: não nos interessa tanto a escrita correta, o domínio da norma culta e das regras de gênero, mas as condições em que a linguagem perde a sua estabilidade, o seu caráter autoritário, e se torna um espaço de liberdade, de transformação e de afirmação da criatividade humana.

É uma aventura. Escrever bem depende da cultura e da educação de cada um. Ser criativo, porém, é apenas para quem tem coragem de correr riscos. Os autores que pretendemos mostrar aqui são desse tipo, pessoas profundamente envolvidas com a experimentação das propriedades expressivas da língua nas suas mais variadas dimensões (sonora, visual, semântica e sintática). Uma outra forma de dizer isso é: procuramos textos nos quais o como-se-diz importe mais do que o-que-se-diz, sem que, no entanto, o-que-se-diz deixe de importar tanto quanto o como-se-diz.

Finalmente, não posso deixar de mencionar um último critério que observaremos na escolha das obras. O texto literário tende a ser bem mais aberto do que outros tipos de texto, ou seja, ele costuma ser bastante ambíguo, depender muito da imaginação do leitor, do seu gosto e da sua perícia no voo livre, sem instrumentos – é como montar um quebra-cabeça sem gabarito. Alguns podem não ter paciência, podem se exasperar e desistir. Outros certamente vão se divertir bastante. Sejamos sinceros, não é o tipo de atividade que agrada a todo mundo. Por isso, apesar de nosso interesse em popularizar a literatura local no local e além, reconheço que os parâmetros que acabei de apresentar podem limitar o alcance do projeto. Infelizmente, esse é o preço que teremos que pagar para dar um mínimo de consistência à proposta de lançar nomes que possam se tornar relevantes não só na região, mas no meio artístico nacional.

Por outro lado, como afirmei acima também, as regras do jogo estão aí para serem debatidas. Cada um dos autores selecionados terá a oportunidade de apresentar um novo nome e justificar, para os demais retratados pela coluna até então, por que o escritor sugerido deve aparecer em um próximo número do Mega Imaginação. Se, no prazo estipulado para o fechamento da edição, a maioria concordar com a escolha, o autor sugerido será publicado. Assim, estaremos contribuindo para a construção de uma comunidade literária forte na nossa região, que possa sustentar e alavancar as iniciativas individuais dos seus membros.

Os interessados em participar deste espaço podem então enviar os seus textos para megaimaginacao@megaphonecultural.com, incluindo entre eles uma minibiografia. Teremos o maior prazer em ler e responder a todos, sejam eles selecionados ou não. Nossa próxima coluna trará o primeiro nome escolhido. Nesta, compartilho com vocês três poemas e uma crônica nos quais abordo, de uma outra forma, um pouco de tudo o que foi dito acima.

 

o outono me propõe
um quebra-cabeça:

o chão forrado de folhas secas

 

A língua do silêncio

escrever na língua do silêncio
não tem muito mistério.

sobre uma folha de papel em branco
coloca-se as palavras mesmo
uma após a outra
criando assim entrelinhas
que é onde se diz qualquer coisa

sem que ninguém veja
sem que ninguém ouça.

 

O sentido

Há rastros do incerto
nas palavras, eu sinto
o predador informe
que nos espreita –
uma selvageria me percorre.

Eu adivinho o êxtase
da refrega, o verso
que me acomete com vertigem,
o incansável cerco
da mais antiga fera.

 

O poeta

Sete aranhas, de tamanhos e idades variados – parecem todas parentes uma da outra – colonizaram cerca de um metro cúbico de ar improdutivo no fundo da sala, um pouco acima da janela, à direita. Nenhuma pessoa notou quando chegaram ali. Estenderam, furtivas, as suas teias e agora vivem de rendas. Uma delas, finíssima, parece bem jovem ainda e foi detectada por último, imóvel. Como desde então ninguém a viu se mexer e permanece quieta sobre o teto branco, cogita-se que talvez seja um desenho delicadamente talhado sobre o mausoléu da família. Na verdade, há pouco movimento na propriedade. As demais aranhas também passam bastante tempo paradas, sem trabalho algum. A maior delas é muito grave e vive entregue a profundas reflexões – talvez esteja maquinando um novo sistema filosófico capaz de dar cabo de todas as ironias da existência. Embora pareçam medonhas e insensíveis, são de uma espécie que não faz mal a ninguém, apenas coletam de vez em quando os ingredientes necessários à sua dieta espartana, sem sal, açúcar ou tempero. O menino da casa, um naturalista amador, considera que, com isso, elas até cometem uma delicadeza, ajudando a manter a residência livre de pragas. A empregada doméstica, sob juramento, reconhece que não ocupam o espaço de ninguém, nem sequer tocam nos quadros ou arrastam as cortinas. A dona da casa, porém, insiste que as intrusas sejam desalojadas e pede reintegração de posse. O marido hesita, admirado ainda – é um poeta.

 

Héber Sales é escritor e publicitário. Atua também como professor, 
coordenando o Grupo de Pesquisa em Semiótica Aplicada à Publicidade
e o Laboratório de Criatividade da UNASP. Seus poemas, prosa e ensaios
têm sido publicados em revistas como Germina, Cronópios, Mallamargens,
Diversos Afins e Digestivo Cultural. Alguns dos seus textos
também podem ser encontrados no blog Coisas para fazer com palavras.                        

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