Circuito Sesc de Artes 2017 reúne em Mogi Guaçu duas diferentes tribos de artistas da spoken word e celebra o prazer da literatura em tempo de amores líquidos e crise na poesia.

por Héber Sales*

Muito antes do papel existir, muito antes do papiro, das tabuinhas de barro cozido, muitos antes do livro, os humanos já curtiam o prazer de jogar com as palavras, suas ambiguidades, seus sons, suas figuras, todos juntos, ao redor de uma fogueira muitas vezes, o que é um outro modo de falar que faziam e apreciavam literatura. A escrita e a leitura solitárias vieram somente um bom tempo depois. E, com a invenção da imprensa, do dever de casa e a ascensão do individualismo burguês a partir do século XVII, tornaram-se rapidamente dominantes, entretenimento de massa – massa de solitários.

Ironicamente, a cultura oral foi resgatada do limbo por um novo experimento da sociedade moderna: a mídia eletrônica. Primeiro, pelo rádio, depois pela TV e, neste novo século, pela internet, o Facebook, o Youtube e afins. Nas cidades, a comunidade não se reúne mais em torno de uma fogueira, é verdade. Nem mesmo na zona rural. Ali também está fácil entrar para um desses grupos do WhatsApp em que as pessoas ouvem e festejam juntas o barato de uma música que viralizou e repetir que “a vida é trem-bala, parceiro”.

Muito se fala de crise na literatura e na poesia. Falta-lhe o prestígio que teve um dia, mais precisamente naquelas décadas entre o século XIX e boa parte do século XX, quando os grandes autores eram pop stars. Agora, pop stars são grandes autores. Até o Nobel de Literatura reconhece: premiou o cantor e compositor Bob Dylan. Novidade para a academia e para os beletristas de gabinete, horror até. O povo, porém, não se surpreende, pois nunca deu as costas para a poesia, total como ela é (verbivocovisual), nunca abandonou os seus bardos e trovadores. Que o diga Noel Rosa, Dorival Caymmi, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Belchior, Racionais MC’s, Emicida, Criolo.

O Circuito Sesc de Artes 2017 chegou a Mogi Guaçu nessa sintonia, armando os seus palcos ao ar livre no Campo da Brahma. Na programação, os herdeiros de duas tradições da spoken word: os Trovadores do Miocárdio, muito inspirados pelo movimento beat e outras ondas da contracultura pop – a mesma que levou Bob Dylan ao estrelato -, e a Batalha de MC’s, mediada pelo DJ Erick Jay, disputa que flerta com a slam poetry. Será que o público se deu conta do parentesco entre essas turmas?

Trovadores do Miocárdio no Circuito Sesc de Artes em Mogi Guaçu (Rodrigo Peguin/Megaphone Cultural)

Os Trovadores do Miocárdio subiram ao palco primeiro. Recitaram crônicas de amor e de sofrimento inspiradas em músicas populares que foram devidamente sampleadas para a performance dos artistas, entre eles, um ícone do pop rock nacional dos anos 80, o cantor, compositor e escritor Fausto Fawcett, que ficou famoso por músicas como Kátia Flávia, Rio 40 Graus e Marinara. Fausto Fawcett, que, para ser um MC, faltou o quê? Raramente cantava. Quase sempre declamava ferozmente sobre uma base musical roqueira. Em Mogi Guaçu, empolgou o público ao narrar que “o amor machuca” ao som de Love Hurts, da banda Nazareth.

A garotada, que veio atrás da batalha de MC’s, foi chegando e ficando no fundo, de pé, meio desconfiada com as performances daqueles tios. Só demonstrou alguma animação quando o cantor e compositor Pélico, o mais jovem dos bardos do amor delirante e dilacerante, subiu ao palco para entoar um texto que dialogava com o hit da Gang 90 & as Absurdettes, Telefone. Quando a mesa de som sofreu uma pane no meio da apresentação, um garoto gritou: “eu tava começando a gostar!”. Porém, à vontade mesmo, ele e a sua turma só ficaram quando o DJ Erick Jay subiu ao palco com os premiados MC’s Stefanie, Barbara Sweet, Kamau e Sombra.

Matraca, do Primavera Nacional, e Sombra (Rodrigo Peguin/Megaphone Cultural)

Não foi exatamente uma batalha de rimas como anunciava a programação, mas uma celebração de manos e minas, com Kamau atuando como mestre de cerimônia, Stefanie louvando a Mulher MC, Sombra detonando a Cocaína e Barbara Sweet declamando as agonias passionais da Dona Dama e o seu refrão da Melodia Perfeita. Além deles, subiram ao palco os rappers guaçuanos MC Matraca, do Primavera Nacional, e o MC Pablo, cuja participação foi registrada em vídeo pelo Megaphone Cultural.

Depois de ouvi-los, é fácil imaginar alguém questionando: mas isso é literatura? Isso é poesia? Perguntas que alguns autores de fardão talvez façam também ao ouvir os Trovadores do Miocárdio, com uma indisfarçável pretensão excludente, comparando-os com um Rubem Braga, um Drummond ou um João Cabral de Melo Neto, inquestionáveis gênios da escrita, para em seguida reclamar, enquanto bebericam o chá das cinco, da crise na poesia, que ninguém mais os ama, que nem ninguém mais os quer.

Héber Sales é escritor e publicitário. Atua também como
professor, coordenando o Grupo de Pesquisa em Semiótica
Aplicada à Publicidade e o Laboratório de Criatividade da UNASP.
Seus poemas, prosa e ensaios têm sido publicados em revistas
como Germina, Cronópios, Mallamargens, Diversos Afins e
Digestivo Cultural. Alguns dos seus textos também podem ser
encontrados no blog Coisas para fazer com palavras.
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